Fortalecimento do sistema motor é fundamental para o uso de Five Fingers

Período de adaptação é essencial para quem não está acostumado a correr sem tênis.

A prioridade pelo conforto e pela anatomia sempre foi um desafio dos designers do mundo inteiro e uma busca incansável no desenvolvimento de diversos itens da indumentária. Na tentativa de criar calçados cada vez mais minimalistas, a empresa italiana Vibram recebeu, em 2001, a ideia de um designer industrial que se mostrava bastante promissora e, desde 2006 passou a vender um calçado diferenciado e bastante apreciado por corredores: os Five Fingers.

Five Fingers tem um melhor controle de choque, movimento e carga

Com o conceito de ser uma “luva” para os pés, o calçado com solado de borracha protege a pele do contato com variadas superfícies e pode ainda colaborar com a performance esportiva, sendo considerado um modelo agressivo. “O uso desse tipo de calçado minimalista é uma tendência que foi fortalecida por um artigo que saiu na revista Nature que mostrava o óbvio: que conseguimos nos virar sem o uso de calçados. O que sabemos – e os estudos são bem consistentes nesse sentido – é que a tendência natural de quem se adapta a correr descalço ou com Five Fingers tem um melhor controle de choque, movimento e controle de carga. Só que esse é nosso maior problema, porque nossos mecanismos de choque são complexos e, na maioria das pessoas, estão destreinados”, conta Julio Serrão, coordenador do laboratório de biomecânica da Escola de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP), que tem uma aluna estudando a fundo o uso desse tipo de calçado.

Maratonistas podem usar Five Fingers

O coordenador acadêmico do CESIT, Mário Pozzi, lembra que os Five Fingers podem ser usados em qualquer tipo de corrida, inclusive maratonas, desde que as musculaturas dos pés e dos membros inferiores estejam adaptadas ao calçado. Aliás, quem nunca treinou com o Five Fingers precisa de um tempo de adaptação antes de começar a usá-lo para correr, já que se pode sentir bastante dor, em especial na planta dos pés.

“Você força muito mais a musculatura do pé que passou a vida inteira dentro do tênis. É como a joelheira: você usa e ela protege, ajuda a não sentir dor, mas enfraquece a região. O tênis protege os pés, mas não deixa usar toda a musculatura e precisa melhorá-la para poder tirar proveito dos Five Fingers.”

Five Fingers: lesões em iniciantes e atletas

Serrão destaca que o uso desse tipo de calçado sem as adaptações necessárias têm gerado diversas lesões e fraturas nos pés, pois “quem começa do nada, cria um estresse para o sistema locomotor que não pode ser absorvido”.

Há quem acredite que corredores costumam se lesionar mais do que os demais atletas. Todavia, Pozzi conta que as lesões acontecem com quem começou a correr recentemente devido ao alto volume de carga, coisa que um corredor de elite nunca fez. “O corredor de elite começa a treinar com 12, 14 anos de idade e permanece na mesma prova por vários anos. Ele prepara a musculatura. Quem começa a correr agora e nunca fez nada na vida, foi inativo na adolescência, mas curte corrida, quer estar pronto em seis meses e aumenta o volume e a distância com pouco tempo de trabalho”, conta.

Até por isso, Serrão indica o uso dos Five Fingers como método de treinamento, sendo usados para reforçar funções, caminhar, fazer aquecimento e não como algumas pessoas sugerem: como estilo de vida. “Não dependemos tanto dos calçados como achamos, mas na minha humilde opinião, a moda dos calçados minimalistas vai acabar com muita gente machucada. É preciso olhar pra eles com cautela, porque algumas lesões podem ser irreversíveis, como a osteoartrose”, alerta.

Pozzi explica que o arco plantar, aquela voltinha que fica na sola dos pés, é o grande absorvedor de impacto do corpo, melhor do que qualquer tênis já desenvolvido, “desde que a pessoa corra com o meio e a ponta dos pés. Correr com o calcanhar é errado”. Assim, pessoas que não têm essa voltinha, que têm o famoso pé chato, têm mais dificuldade no amortecimento e há o trabalho de aumento de força desse pé, sendo que as possibilidades de não se adaptarem ou mesmo de não conseguirem usar um Five Fingers são bastante grandes. Todavia, se considerarmos que ao longo da vida o corpo passar por diversas mudanças, inclusive na passada, a prática esportiva e o uso dos Five Fingers servem como alento, pois podem colaborar para tornar os passos menos limitativos e mais fortes. Serrão lembra que a mudança de calçado também muda a forma de correr, o que demanda atenção redobrada por parte dos profissionais de Educação Física.

Five Fingers deve ser usado com cautela

Julio Serrão recomenda que o profissional de Educação Física cujo aluno deseja treinar com o Five Fingers esteja atento ao histórico daquela pessoa. “Se for alguém treinado, o calçado pode ser usado como componente do treinamento, na periodização do treino, da mesma forma com a qual ele colocaria um alongamento na rotina desse atleta. Agora, se é sedentário, alguém com pouca familiaridade, então a orientação é para começar de forma mais branda, conservativa, usando um mecanismo de proteção que ajuda a reforçar o aparelho locomotor que está fraco. Isso, especialmente para idosos e pessoas em sobrepeso.”

O uso de calçados com redução de sola gradativa também é sugerida como forma de ir adaptando o aluno aos poucos para os Five Fingers, que são mais agressivos: “eles não são pra média da população”, destaca Serrão. Muitas pessoas que começam a usar o Five Fingers sem o devido preparo acabam sentindo dores nas costas, no quadril e não associam com a troca de calçados. Quem teve problemas osteoarticulares em pé, tornozelo, quadril e joelho, pessoas com sobrepeso e com idade avançada devem evitar o uso dos Five Fingers, de acordo com o profissional da USP.

Como treinar com consciência usando Five Fingers

Logo após o lançamento dos Five Fingers, em 2006, uma enxurrada de reportagens e artigos foram divulgados preconizando e/ou crucificando a corrida descalça. Dessa forma, a Vibram se viu no dever de explicar que os estudos a respeito do tema são bastante complexos e indicou uma forma de fortalecer os pés antes de dar início à corrida com os Five Fingers.

A metodologia adotada pela empresa valoriza a complexidade dos pés, já que eles têm 52 ossos, 66 articulações, 40 músculos e centenas de receptores sensoriais. Serrão acha que apenas as indicações do fabricante não são suficientes e que os profissionais de educação física devem buscar estudar a fundo o uso do calçado antes de propor ou aceitar o seu uso.

Ainda assim, a Vibram preconiza que:

– Conheça seu pé: observe, toque, sinta como ele se mexe e reage ao pisar em diferentes texturas;

– Faça um programa de fortalecimento: por duas semanas, pratique três séries de 20 repetições de exercícios como elevação de calcanhar, aperto de dedos, dorsiflexão, flexão plantar, eversão e inversão exageradas, puncionar e extender dedos, pegar toalha e passa-la de um pé para o outro;

– Trace um plano de treino: escolha a superfície, a distância, aprenda a aterrissar com a planta dos pés e não com o calcanhar, tenha paciência e se recupere caso sinta dor.

A Vibram desenvolveu Five Fingers variados, com solados distintos que respeitam a anatomia dos pés e sua proteção, sendo que alguns contam com reforços estratégicos no calcanhar e/ou na planta dos pés para auxiliar a performance, o equilíbrio e a prevenção de lesões, como indica o site internacional da empresa. O tipo de corrida e de superfície a ser percorrida (macia, como areia e grama, ou dura, como calçada e trilhas) é determinante na escolha do Five Fingers que, no Brasil, é distribuído pela empresa David Division, que foi procurada pela reportagem do Portal da Educação Física sem êxito nos contatos.

“Vemos que os Five Fingers são uma grande evolução na passada e nos tênis, mas se estamos falando de pessoas que usaram tênis a vida toda, como os atletas que estão acostumados a correr com esse tipo de calçado fechado, é difícil começar a se exercitar com eles. Usamos os Five Fingers como uma metodologia de treino, no qual aumentamos o trabalho de força da panturrilha com o uso desse calçado em alguns momentos do treinamento, fortalecendo a musculatura”, conclui Pozzi.

Fonte: Portal da Educação Física

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Sobre Prof. Leud

Leudenei Sganzerla – (Prof. Leud) CREF: 081722-G/SP Profissional registrado no Conselho Federal de Educação Física (CONFEF) e no Conselho Regional de Educação Física (CREF). Graduado em Licenciatura Plena em Educação Física pela Universidade do Oeste Paulista – UNOESTE, Presidente Prudente - SP. Pós-graduado em Treinamento Personalizado e Musculação pela Universidade Norte do Paraná - UNOPAR, Londrina - PR. Possui Certificação Internacional Oficial TRX Suspension Training (Treinamento em Suspensão), Certificação Core 360° - Treinamento Funcional e diversos cursos de capacitação como: Prescrição e Orientação de Exercícios na Saúde, na Doença e no Envelhecimento, Atividade Física e Saúde, Envelhecimento e Atividade Física, Atividade Física e Saúde, entre outros. Natural de Presidente Prudente, interior de São Paulo, onde reside e trabalha atualmente. Como Personal Trainer, tem atuado com os mais variados públicos, dentre estes, indivíduos que requerem cuidados específicos, como cardiopatas, obesos, diabéticos, pessoas com problemas na coluna e síndrome metabólica.
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