Calor: um dos maiores inimigos para o funcionamento do corpo

Conheça os mecanismos usado pelos músculos, sangue e suor para dissipar a alta temperatura

Todos nós sabemos que o corpo humano é uma máquina feita para gerar movimento. E um dos maiores inimigos para o bom funcionamento dessa complexa estrutura é o calor.

Nosso organismo tem estratégias para manter sua temperatura próxima dos 37ºC e, para enfrentar o calor durante o tempo de esforço, os órgãos interagem com a temperatura externa, a umidade do ar e a velocidade do vento.

Nesses acordos, as razões para tanto esquenta (termogênese) e esfria (termodispersão, sudorese) andam lado a lado, num processo chamado termorregulação.

É assim, por exemplo, que músculos, sangue e suor trabalham produzindo e liberando calor para tentar manter sua performance, trocando temperatura com o ambiente através de três processos: condução (aceleração da corrente sanguínea), irradiação (vasodilatação periférica) e transpiração (sudorese para provocar resfriamento por evaporação na pele).

O calor, além de minar todas as forças atléticas e de resistência, é mais perigoso para o corpo do que o frio: Porque, 5ºC acima da normalidade corporal “cozinham” as proteínas celulares. No limite extremo dessa temperatura, o cérebro é o órgão mais afetado e acontecem cãibras, náuseas, vômito, suor, tontura, visão turva e desmaio, até que em alguns casos ocorra uma falência cardíaca.

Porém, na outra ponta do termômetro, o perigo começa ao baixar dos 35ºC. Pois, o frio faz o metabolismo diminuir, mas não é tão fatal quanto o calor, já que é preciso 20ºC no corpo para acontecer uma parada cardíaca irreversível.

Entendendo um pouco desses mecanismos:

Ar

Quanto mais alta a temperatura climática e a umidade do ar, mais rápido o corpo vai processar suas estratégias de refrigeração e mais rápido haverá queda de rendimento. Superaquecimento (38ºC) pode gerar fadiga extrema.

Sangue

A pressão arterial alterada recebe calor da atividade física, causa vasodilatação periférica, menos oxigenação dos músculos e a temperatura corporal pode chegar próxima do estado febril (38ºC). Ocorre a perda de sódio no plasma sanguíneo (hiponatremia), que prejudica a absorção de glicose, abaixa a pressão, gera hipoglicemia de esforço e interrompe a atividade.

Músculo

Cerca de 2/3 da energia para gerar a força mecânica dos músculos é desperdiçada na forma de calor. Os exercícios elevam e estabilizam a temperatura corporal a um limite (37,5ºC), somada à temperatura ambiente.

Suor

Com 50% do peso corporal em fluidos, é comum perder até 1,8 kg de líquidos em uma hora de corrida. Porém, a perda excessiva de potássio eleva os batimentos cardíacos até a arritmia e aumenta a vasodilatação.

Essa redução prejudica a saúde e a performance, e pior, ao lutar contra o calor, as glândulas sudoríparas podem desidratar ainda mais um organismo se não houver reposição imediata.

Ar

A combinação de horários, vento e umidade do ar auxiliam no trabalho de redução da temperatura corporal. Ao amanhecer ou anoitecer, com ventos leves e de 50% a 60% de umidade atmosférica, são condições ideais para favorecer o corpo humano na corrida.

Sangue

O sistema circulatório superaquecido desvia o sangue para a pele, deixando-a quente e avermelhada. Essa vasodilatação periférica dissipa o calor excessivo no ambiente para abaixar a temperatura corporal. O condicionamento de sudorese acompanha o cardíaco, evoluindo para reduzir o trabalho e a perda de rendimento.

Músculo

O intenso trabalho muscular gera 20% mais de calor corporal e ativa os sistemas de refrigeração do corpo. O calor irradiado para o sangue é distribuído aos órgãos e dissipado no organismo. Os próprios músculos auxiliam o bombeamento do coração.

Suor

O suor é liberado sobre toda a superfície da pele. A refrescante perda de calor do corpo se dá pela evaporação no ambiente, mais eficiente quanto menor for a umidade relativa do ar.

A transpiração de líquidos se inicia a partir dos 37,4ºC e ocorre quando o calor gerado pelos músculos ultrapassa sua capacidade de dissipação.

Termômetro Humano

42ºC: Não há mais garantias de que a vida possa ser salva. Pois, a ausência de suor indica desidratação grave e estado de coma.

41ºC: Último aviso de grande perigo. O metabolismo fica seriamente comprometido, a ponto de alterar as proteínas celulares.

40ºC: Início da hipertermia. Ocorre náusea, vômito e falta de coordenação pela perda de sais minerais. A interrupção do suor indica forte desidratação.

38ºC: Estado da febre. Forte sudorese com presença de espasmos musculares e sensível exaustão. Há queda de batimentos cardíacos e até desmaio.

36ºC a 37,5ºC: Faixa de temperatura normal do corpo. Inclui a menor (dormindo) e a maior possibilidade (exercício).

35ºC: Início da hipotermia. Perda de coordenação motora e racional. Acontecem calafrios, sensação de cansaço e forte apatia, incluindo recusa ao socorro.

30ºC: O coração quase para e os batimentos caem para 1 ou 2 BPM. O corpo fica em completa desorientação e perde o raciocínio por falta de sangue no cérebro.

20ºC: O corpo interrompe todas as suas funções por causa da diminuição do metabolismo, junto à temperatura, até cessar as atividades do coração e do cérebro.

Fonte: Raul Santo de Oliveira é fisiologista e professor doutor do Cemaf (Centro de Medicina da Atividade Física e do Esporte) da Universidade Federal de São Paulo – Unifesp

Matéria publicada na revista O2 nº103, Novembro de 2011

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Sobre Prof. Carlos

Profissional registrado no Conselho Federal de Educação Física (CONFEF) e no Conselho Regional de Educação Física (CREF). Graduado em Licenciatura Plena em Educação Física pela Universidade do Oeste Paulista – UNOESTE, pós graduado em Treinamento Desportivo pela Escola Superior de Pesquisa e Pós-Graduação-PR, possui curso de capacitação em treinamento personalizado, farmacologia e exercício, fisiologia do exercício e treinamento na saúde, na doença e no envelhecimento. Participa do Grupo de Estudo e Pesquisa em Programa de Exercícios Físicos no Envelhecimento (GEPPEFE).
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